07/07/2009

Aventura na palavra.....


Na busca de um sentido, escrevo sem muita pretensão de encontrar algo.

Escrevo para tentar entender, aquilo que em mim é ruptura- palavras em desatino procuram destino dentro de mim, e eu gosto de flanar nelas, para então me perder; ou para então me encontrar, ainda que por poucas linhas. Ainda que, logo em seguida, eu me perca: ou ainda que, na linha seguinte o horror novamente se inscreva.


Por toda minha vida, associei o ato de escrever ao meu gosto pela errância, pela escapada, pela digressão. Com algumas pessoas muito especiais, troquei traços, rasuras, esboços e cintilâncias do que sou, através da escrita. Diferente do que muita gente diz, as palavras para mim, não se perdem no ar, elas se eternizam ao se transformar em outros saltos semânticos. Elas permanecem encantadas em algum canto recôndito da memória- lá onde existem os segredos partilhados, a palavra plena, as frases delicadas das bonitas trocas do acaso.


Palavra para mim é vertigem, salto no escuro ou, como disse o escritor João Gilberto Noll: "retorno à clareza da manhã, um lançar expressionista como o da tinta na tela, qual um Iberê Camargo com suas cores arrancadas do peito".


Desde muito cedo, fiquei encantada com o ritmo e a sonoridade de cada palavra nova que me habitava. Passei a ter profundo respeito por elas, porque elas passaram a ter um sentido desbravador. Com elas, começei a tomar contato com as multidões que me habitam e com aquilo que está à flor do nada. E, na cadência desse novo mundo que se descortinava, nas entrelinhas da linguagem, eu me fiz: nesse monte de sensações com a língua, com o silêncio e com os inter-ditos criei a minha prosa torta e sincera. Prosa pulsional, seguidora do inconsciente, perdida entre significantes lisérgicos, bucólicos e delicados.


Não sou escritora- reconheço e respeito quem faz literatura e tem essa envergadura- mas a urgência de partilhar uma narrativa, me faz escrever. A violência do mundo, escamoteada por uma cordialidade nada cordial pede que eu possa me vingar, escrevendo.E assim, me sinto viva, pulsante e um tanto apaziguada na minha loucura. Assim, o humor se vivifica e algo da ironia como um último refúgio se coloca. E na palavra e por ela, a mediocridade se transforma em busca.


Nas linhas tortas e despretenciosas, posso colocar no mundo o meu subtexto afetado pelo pathos, aquilo que me move enquanto sujeito desejante.


Na tentativa de dizer, a enunciação acontece e meu drama vira tragédia. A coragem me toma no meu romance particular e o lirismo fica maior do que o horror de existir e ter fim.


Quando escrevo, posso viver o mundo paralelo inebriante e perigoso que me ronda aqui dentro. Quando alguém lê, a possibilidade de apagamento é partilhada e se dissolve em poesia dividida.


Com algumas pessoas a gente diz sem precisar escrever, a gente vai tateando o imposssível de dizer e uma outra escritura se faz. Tive alguns encontros assim, amigos e amigas, que passaram por mim e puderam perceber que o peso das coisas não-ditas no cotidiano, tornam- se marcas indeléveis de quem sou e dessa escrita onde real e ficcional se confundem.


De alguns desses encontros, restaram somente as palavras e todo um universo que esperava e ansiava para ser vivido em ato. A morte se colocou algumas vezes- real ou simbólica, mas nessa interpenatração da escrita com o que sou, tento lapidar cada letra para que assim meu grito mudo se legitime e possa transmitir um pouco daquilo que me constitui, mas que pode habitar qualquer um. Nessa interface da aventura de escrever, o Outro também se revela para mim e se faz presença, mesmo na ausência.


A palavra vence a morte...

A singularidade na moda - o vestir como aquilo que temos de mais particular


( Matéria publicada na revista B de número 21- A revista B é toda produzida em Londres e com escritório em Ribeirão Preto. Tem editorias de moda sensacionais e agora a parte de cultura de moda comigo.) Vai lá:




Percebe-se hoje um interessante movimento criativo e crítico: brilhantes estilistas praticando com sucesso o que se chama demi-couture.

Olivier Theyskens para Rochas, Nicolas Ghesquière para Balenciaga, o genial Alber Elbaz para Lanvin, todos fazendo roupas exclusivas e sob medida, se situando com maestria entre o prêt-à-porter e o ready-to-wear - o “pronto para vestir” de nossos dias e a alta costura - criando um caminho mais singular para o corpo, abordando novas textualidades e resignificando o próprio estatuto de corpo, que anda pasteurizado e perdido de si.

Oscilam entre os pólos do efêmero e do eterno, do globalizado e do exclusivo - cortando e costurando roupas, valorizando a irregularidade das medidas e as peculiaridades de cada corpo e, quem sabe, de cada desejo que se inscreve ali na superfície enquanto intertexto.

Uma criadora que, com um novo e instigante olhar, pode nos servir como referência, é a japonesa Rei Kawakubo, diretora de criação da Comme des Garçons. Kawakubo, desde seu primeiro desfile em Paris, em 1981, expande e explode em surtos de sentidos alterados, redefinindo a moda e colocando o corpo vestido com uma significação que está sempre “por-vir”, evocando textualidades corpóreas e apresentando, na cena da moda ocidental, um corpo vestido “perturbado e perturbador”, que carrega consigo uma mensagem de “verdade do sujeito que veste”, fazendo repensar o vestir em suas possíveis e, por vezes, ultrajantes subversões, contribuindo para que a moda, ao romper com rígidos aprisionamentos simbólicos, possa inserir-se no quadro das estéticas e poéticas contemporâneas.

Deparar com a obra de Kawakubo equivale a re-descobrir o que nem se desconfiava existir sob as dobras do (in)visível de uma roupa em sua potência sígnica.

As peças de Kawakubo dobram-se sobre si mesmas, questionando e fazendo entrecruzar-se nossas noções do belo e do feio, apontando assim para uma outra ética e uma outra estética.

Em 1997, a Comme des Garçons questionava de forma incômoda as proporções corporais, tornando o corpo, para muitos, defeituoso, deformado, distorcido.

Assimetrias, proporções inusitadas em relação às formas vestidas femininas povoam a estética de Kawakubo, que situa a moda não só no palco das estéticas contemporâneas, mas também como uma inesgotável fonte de reflexão acerca do lugar da moda contemporânea como signo da cultura e fenômeno tão crucial para a definição da subjetivação em nossos dias.

Kawakubo, assim como os jovens talentos que andam fazendo roupas para cada corpo - demi-couture -, olha e pode enxergar na significação que está por vir, todo um enfeixamento poético entre as esculturas têxteis e o corpo, tocando algum sentido que desliza no momento evanescente de vestir.

E entre plissados e dobras, descortinam-se as formas ao infinito, fazendo perceber a verdadeira vocação da moda como o estabelecimento de algo que não é corriqueiro e que está associado ao estilo. Algo que possa ser único e original, capaz de colocar o corpo nas entrelinhas poéticas, aparecendo a partir desse olhar e ao mesmo tempo, quem sabe, sem aparecer por completo. Suspenso, plissado, dobrado, estendido em infindáveis dobras do tempo, mas muito longe daquilo que está dado e hermeticamente pensado.

Certa estava Chanel: O luxo não é o oposto da pobreza. É o contrário da vulgaridade.

Que a moda caiba naquilo que desejamos e que podemos ser, e que traga sempre o oposto daquilo que é vulgar e que já está aí!

05/07/2009

A música do dia....


Para quem não acredita em amores óbvios e tolos

Para quem não acredita em relações que nascem prontas

Para quem acha que aquilo que é bonito é mais difícil

Para quem acredita em um amor de "sins e nãos"....


Para quem é assim, escuta aqui:




Carta desafinada...


Entre o desejo do que já foi e a intermitência do que virá, meu coração bascula e lateja de dor. Entre o novo e o mesmo, a pergunta inter-cala a cena.
Acordo sentindo que não há coisa alguma do tamanho da minha urgência de amar.
Minha ansiedade de amor é grande demais, e com isso atropelo o presente e estrangulo a alteridade deitada ali do lado. Ainda não sei fugir do eterno retorno, e talvez ainda nem saiba nomear o meu desejo, mas encontro em Neruda algum conforto: " seria capaz de devorar o universo inteiro por amor"...
Adélia Prado, dizia que, para o desejo dela, o mar era uma gota. Talvez ,para mim, seja um tanto assim também. A poesia anda sempre me salvando de mim, e nela eu posso, em dança ritmada, entender que todo objeto de amor é pequeno demais para o nosso querer.
Caetano, cantou" o desencanto na bruta- flor do querer" e depois dele, qualquer palavra para dar conta do desencontro é desnecessária. Só sobra o corpo gravitando ao redor da angústia, como se soubesse mais do que eu, como se sentisse a cadência que transborda dali .
E, eu sigo no enigma desejante da falta, às vezes tropeçando em deslizes metonímicos e relâmpagos perigosos. Sigo lendo mal as entrelinhas do corpo, porque só entendo a metafísica da alma.
Bataille, diz que o olhar que olha para o corpo e só vê a superfície, não vê o corpo. Corpo é profundidade, desejo é sangue e suor. Quem olha para o corpo e entende tudo não vê o símbolo, o índice, a marca misteriosa da ausência dilacerada.
Por ver demasiadamente, a poesia salta de mim numa celeridade desordenada, e em prosa ela se despedaça da lógica: pula entre vestidos, filosofia e angústias de domingo.
Pousa em desatino, lá onde você me olha -entre um gole de café e outro, sem nada para dizer; no silêncio das mãos afastadas e apáticas.
A poesia sonha e sua mão invade meu cabelo, e eu falando inutilidades e platitudes sem medo do ridículo e da censura prossigo dionísiaca, a busca.
Entre a embriaguez de um vinho dividido, te digo coisas absurdas e únicas.
Deito do seu lado numa rede e sonho com minha imagem no seu futuro, mesmo sabendo que talvez eu não esteja lá.
Você ignora o improvável e fala da casa que teremos e a descreve em detalhes- com jardins e sacadas para o vento.
Você faz tudo isso, enquanto passa a mão nas minhas costas e me beija o rosto.
E assim, nunca perde de vista a música de sua existência.
E assim, me promete ter entendido que a viagem é o que conta.
E teremos sido felizes.
E nunca nos arrependeremos do que fomos e de tudo que vivemos.
E que, desse jeito, que você me guarde na memória, mais do que nas fotos.
E que até o último dia de sua vida, você conte delicadamente a nossa história para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor de sua vida.

02/07/2009

Segredo do desejo....


Naquilo que se deseja o ser naufraga


corpo interpenetrado na cena se incorpora,


mas do que se quer, pouco se sabe...


Por alguns segundos, a felicidade divina da posse:


um morre nos braços do outro e cada um em seu júbilo solitário delira.


Ali na imagem, na beira da realidade, o amor se fez


Ali na visão, daquilo que existia em mim antes do início


o encontro aconteceu...


Ali eu me vi,


refletida naqueles olhos- doces e urgentes


numa ansiedade estética que me acompanha desajeitadamente:


(brisa suave-tormenta escura-palavras ao vento- dores partilhadas- cadernos rabiscados- cartas num transatlântico- felicidade clandestina)


E tudo nele me respondia:


Não sou o que tu procuras, sou a errância do amor que te encontrou- desavisadamente.


O sentido está guardado no rosto com que te miro....

29/06/2009

Entre...


Entre a tese e a antítese

do jogo barroco da inconclusão

a melancolia se escandaliza e sorri


Num gesto de cansaço ela- a melancolia

Olha para o mundo e pensa na metafísica


Num gesto de ruptura ela salta para lugar algum

e na captura daquilo que está à deriva
desliza metonicamente:

(pedaço- encontro- varanda- vento no rosto)


Entre o que foi e o que virá

resta a vida como saída.


26/06/2009

Amores e mudanças- Contardo Calligaris




Como esbarrar num amor que nos transforme? O filme "Tinha que Ser Você" dá uma dica preciosa :
Quando a vida da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo?


Provavelmente, sim - no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.Os especialistas validam nossa esperança.


Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?


Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme?


A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los.


Aqui vai um exemplo.O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance - a chance de transformar suas vidas.Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos - ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate. Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.


Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.


Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".


O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.

Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes - entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia.


Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas.