
Na busca de um sentido, escrevo sem muita pretensão de encontrar algo.
Escrevo para tentar entender, aquilo que em mim é ruptura- palavras em desatino procuram destino dentro de mim, e eu gosto de flanar nelas, para então me perder; ou para então me encontrar, ainda que por poucas linhas. Ainda que, logo em seguida, eu me perca: ou ainda que, na linha seguinte o horror novamente se inscreva.
Por toda minha vida, associei o ato de escrever ao meu gosto pela errância, pela escapada, pela digressão. Com algumas pessoas muito especiais, troquei traços, rasuras, esboços e cintilâncias do que sou, através da escrita. Diferente do que muita gente diz, as palavras para mim, não se perdem no ar, elas se eternizam ao se transformar em outros saltos semânticos. Elas permanecem encantadas em algum canto recôndito da memória- lá onde existem os segredos partilhados, a palavra plena, as frases delicadas das bonitas trocas do acaso.
Palavra para mim é vertigem, salto no escuro ou, como disse o escritor João Gilberto Noll: "retorno à clareza da manhã, um lançar expressionista como o da tinta na tela, qual um Iberê Camargo com suas cores arrancadas do peito".
Desde muito cedo, fiquei encantada com o ritmo e a sonoridade de cada palavra nova que me habitava. Passei a ter profundo respeito por elas, porque elas passaram a ter um sentido desbravador. Com elas, começei a tomar contato com as multidões que me habitam e com aquilo que está à flor do nada. E, na cadência desse novo mundo que se descortinava, nas entrelinhas da linguagem, eu me fiz: nesse monte de sensações com a língua, com o silêncio e com os inter-ditos criei a minha prosa torta e sincera. Prosa pulsional, seguidora do inconsciente, perdida entre significantes lisérgicos, bucólicos e delicados.
Não sou escritora- reconheço e respeito quem faz literatura e tem essa envergadura- mas a urgência de partilhar uma narrativa, me faz escrever. A violência do mundo, escamoteada por uma cordialidade nada cordial pede que eu possa me vingar, escrevendo.E assim, me sinto viva, pulsante e um tanto apaziguada na minha loucura. Assim, o humor se vivifica e algo da ironia como um último refúgio se coloca. E na palavra e por ela, a mediocridade se transforma em busca.
Nas linhas tortas e despretenciosas, posso colocar no mundo o meu subtexto afetado pelo pathos, aquilo que me move enquanto sujeito desejante.
Na tentativa de dizer, a enunciação acontece e meu drama vira tragédia. A coragem me toma no meu romance particular e o lirismo fica maior do que o horror de existir e ter fim.
Quando escrevo, posso viver o mundo paralelo inebriante e perigoso que me ronda aqui dentro. Quando alguém lê, a possibilidade de apagamento é partilhada e se dissolve em poesia dividida.
Com algumas pessoas a gente diz sem precisar escrever, a gente vai tateando o imposssível de dizer e uma outra escritura se faz. Tive alguns encontros assim, amigos e amigas, que passaram por mim e puderam perceber que o peso das coisas não-ditas no cotidiano, tornam- se marcas indeléveis de quem sou e dessa escrita onde real e ficcional se confundem.
De alguns desses encontros, restaram somente as palavras e todo um universo que esperava e ansiava para ser vivido em ato. A morte se colocou algumas vezes- real ou simbólica, mas nessa interpenatração da escrita com o que sou, tento lapidar cada letra para que assim meu grito mudo se legitime e possa transmitir um pouco daquilo que me constitui, mas que pode habitar qualquer um. Nessa interface da aventura de escrever, o Outro também se revela para mim e se faz presença, mesmo na ausência.
A palavra vence a morte...






